A Invasão Chinesa
As relações comerciais entre Brasil e China me lembra uma teoria famosa criada pelos economistas da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), órgão criado pela ONU no pós-guerra sediado em Santiago do Chile. Estes economistas desenvolveram a teoria das relações Centro-Periferia; que colocava os países da América Latina dependentes de exportação de produtos primários para os países ricos (Centro), enquanto estes exportavam produtos industrializados para os países da periferia. Situação típica na América Latina que prevaleceu desde os tempos coloniais até a crise de 1929. Este período antes de 1930, chamado de Liberalismo não permitia a industrialização da periferia pois os países do Centro estavam mais avançados e num mercado livre poderiam vender produtos mais baratos. Cada país especializava em produtos que poderiam produzir com custos menores tornando-se competitivo em termos internacionais. Assim, os países periféricos seriam eternamente exportadores de matérias-primas e produtos primários e eternamente importadores de produtos industrializados. Os cepalinos apontavam somente uma alternativa para sair desta armadilha : industrialização com proteção do Estado; que ficou conhecido depois na América Latina como o processo de industrialização via substituição de importações. Ou seja, o Estado protegia o mercado interno dos produtos estrangeiros, taxando-os mais caros (via tarifas ou câmbio); e desta forma a indústria nacional se sentia mais segura para investir e produzir para o mercado interno. Boa parte dos países desenvolvidos usaram estas políticas de proteção para se industrializarem.
Novamente a situação do comércio entre América Latina e China parece repetir as relações Centro-Periferia, dos tempos coloniais. O que o Brasil exporta para a China ? Soja, minério de ferro, etc. > produtos primários. O que o Brasil importa da China ? Produtos industrializados, eletrônicos sofisticados, chips e peças de eletrônicos e até produtos da indústria tradicional (têxteis, vestuários, utilidades domésticas e de consumo pessoal, etc.). Exportamos matérias-primas e importamos o produto industrializado a partir destas matérias-primas. Exatamente como nos tempos coloniais. Minas Gerais exportava ouro na época colonial do século XVIII e importava todo tipo de artigos industrializados da Inglaterra (via Portugal), que afinal era onde o nosso ouro ia parar, financiando em grande parte a famosa Revolução Industrial no mesmo período.
Minas, hoje em dia, na região do Norte de Minas, Vale do Jequitinhonha e Vale do Mucuri é responsável por mais da metade da produção mundial de pedras preciosas, semi-preciosas, cristais de quartzo, hematita,etc. Minas hoje abriga a maior reserva de silício economicamente viável do mundo. Cristais de quartzo podem ser transformados em silício puro, componente essencial na fabricação de componentes eletroeletrônicos (placas de computadores, chips, resistências elétricas, células fotovoltaicas,etc.), semicondutores, etc. No entanto, esta região é uma das mais pobres de Minas e do país. Os chineses sabem disso e já chegaram lá. Repórteres do Estado de Minas pesquisaram a região e publicaram uma reportagem em 19/11/2006. Dezenas de pequenos empresários chineses estão varrendo esta região, compram tudo que encontram em estado bruto, maior parte no comércio informal, direto com os garimpeiros, sem tributação e mandam para a China. Vejam a situação, os garimpeiros vendem peças de quartzo a R$0,40 cada. Industrializados estes cristais podem valer até R$80,00 cada ou seja, 20.000 vezes mais. E o pior : o produto chinês industrializado com matéria prima brasileira, entra no Brasil 35% mais baratos que os fabricados aqui. Neste caso, pesa a carga tributária que no Brasil é alta e na China é de apenas 7%.
A China possui a mão de obra mais barata do mundo, sem leis trabalhistas, sem salário mínimo; possui a carga tributária mais baixa ou uma das mais baixas do mundo; a moeda chinesa vale 5 vezes menos que o dólar; possui a maior população do mundo. O que se vê é que a China, como os outros países orientais, os chamados tigres asiáticos, usaram políticas econômicas para estimularem as exportações de produtos industrializados. Por exemplo, a política cambial super desvalorizada faz com que os produtos exportados sejam super baratos e os produtos importados sejam mais caros; desta forma os produtos que eles fabricam entram mais baratos nos países ocidentais. O Japão fez isso, no pós-guerra e continua fazendo, agora é a vez da China que está com sua moeda superdesvalorizada em relação ao dólar. Assim, fica mais fácil, os produtos chineses são muito mais baratos em dólar do que qualquer produto estrangeiro. Isto mais o custo da mão de obra chinesa, faz com que seus produtos fiquem extremamente competitivos no mercado internacional. A América Latina,usava uma política econômica completamente oposta – protegia seu mercado interno – assim sua indústria era competitiva somente no mercado interno e não no mercado externo. Sua indústria ao contrário não era competitiva. Quando estes abriram seus mercados, o que houve foi uma desindustrialização – pois as indústrias da América Latina não eram competitivas, devido ao tipo de políticas adotadas pelos seus governos, tipo substituição de importações. O sucesso dos países asiáticos se deu usando políticas bem diferentes, estimulando a exportação de produtos industrializados, tornando a indústria desses países mais competitivas. Quem vai concorrer com os chineses ? Impossível. O Brasil teria que fazer reformas drásticas em seu modelo econômico – teríamos que construir e estruturar um novo modelo econômico dentro do contexto atual da globalização e das condições do mundo moderno. - o que levaria décadas. Enquanto isso, eles estão sendo a fábrica do mundo e em pouco tempo irão ultrapassar os EUA em termos de PIB, tornando-se a maior potência econômica do mundo.